A Vingança
Jul 18
Crônica Motivação Comentários Desligados
Uma fratura exposta no joelho direito me tirou das atividades.
Saímos correndo da Saideira, motivados pelo instinto masculino de competição. Nenhum de nós nunca treinou para provas de tiro. Corríamos atrás de nossos colegas no jardim de infância, sujos de areia e ralados do brinquedão. Anos mais tarde, corremos atrás de saias, buscando o prêmio máximo: a cor da calcinha de baixo da saia. De repente, somos todos homens maduros e formados em faculdades exemplares, temos nossos carros, nossas bicicletas, nossas passagens de avião, não mais corremos. Exceto em ocasiões etílicas específicas.
E era uma dessas grandes ocasiões. Fazia algum tempo que não reuníamos alguns elementos da equipe um dia denominada “Tetas”. Estávamos felizes. Os solteiros tinham alcançado exatamente a cota de mulheres e bebida necessárias para o bom funcionamento da semana seguinte. Os casados, por não terem o ímpeto da lascívia em seus corpos, se dedicavam a dobrar o número de shots e zoações. Uma gargalhada gostosa seria o brasão do nosso país naquela noite.
Portanto corremos. Eu sempre achei fundamental ganhar esse tipo de competição intermediária entre meus amigos, visando bons momentos de tiração de sarro. Sou conhecido por isso. Focinho alinhado ao horizonte, pernas magrelas e compridas ritmadas como que fugindo do juízo final, deixei meus companheiros de bando para trás com um terrível olhar de vitória.
Curva para esquerda. Esse era o momento de parar de correr. Já tinha ganhado a corrida. Mais alguns passos, estaria no carro dando socos no braço dos meus amigos, vangloriando-me a respeito da minha velocidade sobrenatural. Mas eis que surge um Pólo Sedan Prata.
O Pólo Sedan Prata provavelmente saiu de baixo da terra. Dei um passo errado para direita, calculei mal a velocidade do carro e a minha. Tenho esse flash na minha memória: o carro virando o volante na minha direção, mas quem sabe? Talvez eu é que estivesse no trajeto dele.
Em fim, o carro acertou minha perna direita. Voei razoavelmente, bati com a cabeça no chão. Tive outras escoriações no corpo, como uma lesão na mão esquerda, um corte na mão direita, mas o mais grave mesmo foi a fratura exposta no joelho direito. O Pólo, como não poderia deixar de ser, foi embora, deixando esse pobre diabo deitado na sarjeta, esperando seus amigos chegarem, chorando a falta de sorte e o voleibol que deixaria naquele instante em diante. Todos os bons espíritos me largaram, ou todos os bons espíritos estiveram protegendo minha cabeça?
O céu estava nublado. Segurava meu joelho com as duas mãos, tentando impedir que a patela saisse correndo, esperando que o sangue todo voltasse para seu lugar de origem. Meus amigos estavam comigo e tentavam confortar. Bruninho fazia piadas, Paim e o Pasten tratavam de rir delas. Um grupo de maloqueiros estava gritando coisas como “esse filho da p&%…” e etc. Eu não sentia dor, só o orgulho ferido, uma mancha que carregaria para o resto de minha vida. E se eu mancasse? E se nunca mais pudesse gozar do meu status de atleta? Quanto tempo demoraria pra ficar bom? Quanta dor eu sentiria na fisioterapia? Onde estava o Pólo Sedan Prata?
O dono do Pólo Sedan Prata ligou em todos os canais de TV no dia seguinte em busca do seu nome e sua placa relacionados a um atropelamento na saída de uma festa universitária. Sentiu um alívio estúpido por não ter sido pego. Será que tinha matado aquele magrelo?
Agora esse desgraçado deve estar fumando seu cigarro, tomando seu café, esperando a hora de sair da empresa e ir para academia puxar um ferro. Talvez seja um cara normal.
Podemos constatar ausência de caráter na omissão de socorro? E o susto, e o pavor de ser preso, ser pego, ser amordaçado, ter seu c* comido por outros presos? E o álcool no sangue, e as drogas no porta-luvas? Eu teria ficado, mas a maioria das pessoas normais teria ido embora. Estamos no reino da impunidade.
Mas como eu me vingo desse ordinário se eu não puder contar com os homens da lei? Cumpro o destino que talvez ele tivesse tirado de mim se eu tivesse morrido. Me formo, passo no concurso de delegado da policia federal. Deixo de beber, caso com a Natalia, contribuo com a minha existência para que o mundo se torne um lugar mais justo e melhor. Crio crianças a minha modesta semelhança, sorrio um sorriso aberto quando olho pra cicatriz em meu joelho e recordo das provações que passei para correr novamente aquela velocidade sobrenatural. Essa é minha melhor vingança. No meu íntimo, vou imaginar que esse filho da p*#¨@ vai continuar fazendo merdas na vida, vai atropelar outras pessoas, vai trocar tiros com traficantes, vai fugir para o México e ter uma existência desgraçada. Enquanto isso, eu cumpro meu destino, e fico esperto com as próximas tentativas do azar endiabrado, que ronda nossas casas em busca de uma boa oportunidade de nos ferrar.


