A Vingança

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Uma fratura exposta no joelho direito me tirou das atividades.

Saímos correndo da Saideira, motivados pelo instinto masculino de competição. Nenhum de nós nunca treinou para provas de tiro. Corríamos atrás de nossos colegas no jardim de infância, sujos de areia e ralados do brinquedão. Anos mais tarde, corremos atrás de saias, buscando o prêmio máximo: a cor da calcinha de baixo da saia. De repente, somos todos homens maduros e formados em faculdades exemplares, temos nossos carros, nossas bicicletas, nossas passagens de avião, não mais corremos. Exceto em ocasiões etílicas específicas.

E era uma dessas grandes ocasiões. Fazia algum tempo que não reuníamos alguns elementos da equipe um dia denominada “Tetas”. Estávamos felizes. Os solteiros tinham alcançado exatamente a cota de mulheres e bebida necessárias para o bom funcionamento da semana seguinte. Os casados, por não terem o ímpeto da lascívia em seus corpos, se dedicavam a dobrar o número de shots e zoações. Uma gargalhada gostosa seria o brasão do nosso país naquela noite.

Portanto corremos. Eu sempre achei fundamental ganhar esse tipo de competição intermediária entre meus amigos, visando bons momentos de tiração de sarro. Sou conhecido por isso. Focinho alinhado ao horizonte, pernas magrelas e compridas ritmadas como que fugindo do juízo final, deixei meus companheiros de bando para trás com um terrível olhar de vitória.

Curva para esquerda. Esse era o momento de parar de correr. Já tinha ganhado a corrida. Mais alguns passos, estaria no carro dando socos no braço dos meus amigos, vangloriando-me a respeito da minha velocidade sobrenatural. Mas eis que surge um Pólo Sedan Prata.

O Pólo Sedan Prata provavelmente saiu de baixo da terra. Dei um passo errado para direita, calculei mal a velocidade do carro e a minha. Tenho esse flash na minha memória: o carro virando o volante na minha direção, mas quem sabe? Talvez eu é que estivesse no trajeto dele.

Em fim, o carro acertou minha perna direita. Voei razoavelmente, bati com a cabeça no chão. Tive outras escoriações no corpo, como uma lesão na mão esquerda, um corte na mão direita, mas o mais grave mesmo foi a fratura exposta no joelho direito. O Pólo, como não poderia deixar de ser, foi embora, deixando esse pobre diabo deitado na sarjeta, esperando seus amigos chegarem, chorando a falta de sorte e o voleibol que deixaria naquele instante em diante. Todos os bons espíritos me largaram, ou todos os bons espíritos estiveram protegendo minha cabeça?

O céu estava nublado. Segurava meu joelho com as duas mãos, tentando impedir que a patela saisse correndo, esperando que o sangue todo voltasse para seu lugar de origem. Meus amigos estavam comigo e tentavam confortar. Bruninho fazia piadas, Paim e o Pasten tratavam de rir delas. Um grupo de maloqueiros estava gritando coisas como “esse filho da p&%…” e etc. Eu não sentia dor, só o orgulho ferido, uma mancha que carregaria para o resto de minha vida. E se eu mancasse? E se nunca mais pudesse gozar do meu status de atleta? Quanto tempo demoraria pra ficar bom? Quanta dor eu sentiria na fisioterapia? Onde estava o Pólo Sedan Prata?

O dono do Pólo Sedan Prata ligou em todos os canais de TV no dia seguinte em busca do seu nome e sua placa relacionados a um atropelamento na saída de uma festa universitária. Sentiu um alívio estúpido por não ter sido pego. Será que tinha matado aquele magrelo?

Agora esse desgraçado deve estar fumando seu cigarro, tomando seu café, esperando a hora de sair da empresa e ir para academia puxar um ferro. Talvez seja um cara normal.

Podemos constatar ausência de caráter na omissão de socorro? E o susto, e o pavor de ser preso, ser pego, ser amordaçado, ter seu c* comido por outros presos? E o álcool no sangue, e as drogas no porta-luvas? Eu teria ficado, mas a maioria das pessoas normais teria ido embora. Estamos no reino da impunidade.

Mas como eu me vingo desse ordinário se eu não puder contar com os homens da lei? Cumpro o destino que talvez ele tivesse tirado de mim se eu tivesse morrido. Me formo, passo no concurso de delegado da policia federal. Deixo de beber, caso com a Natalia, contribuo com a minha existência para que o mundo se torne um lugar mais justo e melhor. Crio crianças a minha modesta semelhança, sorrio um sorriso aberto quando olho pra cicatriz em meu joelho e recordo das provações que passei para correr novamente aquela velocidade sobrenatural. Essa é minha melhor vingança. No meu íntimo, vou imaginar que esse filho da p*#¨@ vai continuar fazendo merdas na vida, vai atropelar outras pessoas, vai trocar tiros com traficantes, vai fugir para o México e ter uma existência desgraçada. Enquanto isso, eu cumpro meu destino, e fico esperto com as próximas tentativas do azar endiabrado, que ronda nossas casas em busca de uma boa oportunidade de nos ferrar.

Conclusão

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Faz muito tempo que eu não dropo uma onda de verdade. Aquela vertigem, sabe? Deixei a bodyboard de lado no Guarujá. Usando a triquilha verde de Peruíbe, ainda não me aproximo de qualquer coisa parecida com surf. Mas, mesmo não fazendo jus as horas que dedico em terra a firme ao esporte, lendo livros, acompanhando previsões, só de estar no mar já ganho muito. Vi no início da manhã do dia 31 ondas maravilhosas. Elas cresciam com bom tamanho, um pouco mais de 0,5 metro, abrindo inteiras para direita, no inside. Não lembro a última vez que me senti tão desafiado. Esse confronto que busco incessantemente na vida se delicia com o mar, nas braçadas, nos drops certeiros, na paciência necessária para aguardar a onda do dia. É uma felicidade que sempre está a míngua diante da própria perspectiva de crescimento. Tenho essa sensação perene, de que surfar equaliza minha vida. Não surfo bem, não tenho a minha disposição ondas ou prancha de qualidade, mas no mover dos anos é tudo que restou. Outros desejos e vontades nasceram e morreram na minha lista de prioridades. Só essa continua acesa, “como um facho na noite escura”. Me trouxe até aqui, lugar dos meus enganos, terra que eu evito a tanto tempo. Até onde mais pode me levar?

Queimar os Versos e Rasgar as Crônicas

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Queimar os versos, rasgar as crônicas, apagar todos os rabiscos no topo dos cadernos de Direito. É o fim? Talvez mais um, em tantos que inventei e logo esqueci. Talvez definitivo, por que tudo deve acabar um dia, até minha pretensa vocação de blogueiro. Já resta pouco assunto, na realidade. As vezes falo do mar, as vezes falo de amor, dois dos três signos que me angustiam, me crivam a carne de dúvidas e prazer. Passou o romantismo exagerado, passou o heroísmo confuso. Restou um homem certo sobre alguns aspectos do seu destino, pronto para mudá-lo no impulso de um segundo. Não cabem confidências, nem qualquer necessidade de afirmação por parte do mundo. Eu sei que escrevo, isso basta. Me livra de algum peso nas tardes sem sol.Deixo um beijo afetuoso para quem buscou encontrar-se nos meus versos, e provavelmente se achou, pois basta pouco para tornar-se um soneto, uns olhos, um jeito de rir… Deixo um abraço aos amigos fraternos, que por obra do acaso ou do costume as vezes passam por aqui. Eis então, talvez o fim.

Sentimentos no Outside

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Imagine se o tempo todo você sentisse aquilo outside te oferece. Não falo do sopro de vida no ato de dropar uma onda, de construir linhas inexatas sobre sua superfície lisa, observando enquanto aquela massa de água se precipita e em alguns segundos explode sobre seu corpo e prancha. Seria injusto, um bando de homens e mulheres felizes demais para parecerem normais, fazendo coisas inúteis e sorrindo, assobiando. Falo da paz, da plenitude, do sentimento de vazio que te preenche e te engole, tornando você um viciado por aquele horizonte azul, um solitário sempre esperando, aguardando, sabendo que o próximo momento sempre vai ser bem melhor. Não é alegria, mas uma certeza de que a resposta para todas as nossas perguntas está logo ali. De que o medo que sentimos tem fundamento: ele nasceu para ser superado.

Nunca é só um beijo

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O movimento da saia da loira chamou minha atenção, mas foram os olhos da morena que me anestesiaram para todo resto, música, álcool, risadas. O copo não caiu por um milagre.

Alguém puxava meu braço insistentemente. Não entendia que eu receberá um tipo de ordem irremovível, uma missão de salvamento. Da minha alma, da minha condição de homem inquieto. Tive que afastá-lo com uma cotovelada, sem meias palavras.

Caminhei no meio da multidão, sorrindo, eufórico. Ela deixará de sustentar seus olhos nos meus, dançava com sua amiga, braços no ar. Não fez diferença. Confesso ess minha fraqueza: as mulheres. Seus corpos se mexendo no ritmo da música apagam meus conceitos mais certos, como orgulho, amor próprio, respeito. Assim, constantemente sou fisgado. Viro um bandeirante português, rompendo o mato cerrado a minha frente com um facão, adentrando no mistério absoluto da alma feminina, da pele quente da mulher que transforma meu sangue em fumaça.

Elas tinham um jeito, um rebolado efervescente, contagiante. Os caras mais próximos estufavam o peito, as invejosas caprichavam nas caras, nas bocas, tentando me retirar do meu destino: a Morena.

Então, novamente eram os olhos. A leveza do verde, as sobrancelhas bem delineadas, uma maneira doce de franzir a testa, encolher a vista como se olhasse além de mim, desconectada do momento, livre do meu poder. Ela oferecia um desafio claro. Dizia com aquele meio sorriso que eu nunca a teria em meus braços, que não poderia brincar no seu umbigo, que não faria marcas em seu corpo, destroços em seu coração. Contei isso pra ela.

Contei mais coisas. Falei da minha vontade de pegá-la no colo e levá-la para conhecer os mais diversos paraísos do mundo, de carro, de nave, de caiaque. Confessei que queria vê-la nua, na varanda, olhando perdida as aves libertas, sobrevoando a rude arrogância do mar, enquanto eu observava suas costas, seus quadris. Disse-lhe então que a amaria tão forte, que meu desejo abarcaria todo inverno e, inconcebível, aqueceria os mais tristes corações. Seríamos amantes, inventando novas normas na cama, como duas crianças que aprendendo os movimentos. Gritaríamos um pelo outro, simplesmente.

Suponho que ela não tenha escutado claramente nada disso. A música era muito alta. Entretanto, gostou da aproximação; minhas mãos ganhavam espaço. Primeiro os dedos finos, um anel acusador. A outra mão escapou pela cintura, nos braços. Logo agarrei a sua nuca, como a última martelada ante ao topo da montanha, certo que a tão esperada Nirvana estava a alguns palmos dali.

Fui empurrando nossos corpos contra a coluna de mármore. Sua amiga loira nos deixará a sós. Na realidade, tive certeza de que todas as pessoas na balada tinham ido embora, resignadas, compreendendo. Nossa respiração era sôfrega, por que nunca é só um beijo. Nunca é só uma ficada, nunca é só uma transa. Cada segundo é o derradeiro, por isso eu teimo com a rotina, com o cansaço, com o comum. Eu queimo a largada, eu antecipo o soco. Intenso, arrasto minha lírica aos retirantes do circo, aos executivos no prédio paulistano, as morenas na balada.

A loira voltou. Puxou a amiga pelo braço, dizendo que era hora de ir. Não insisti para que ficasse, permiti que partisse sem deixar nome, endereço, formação acadêmica.

Então, quando achei que era hora de encontrar meus amigos fraternos, olhei um movimento irresistível próximo ao bar, alguma coisa tão luminosa quanto a luz do primeiro dia de verão rompendo a copa das mais altas árvores. Era um sorriso. Tinha uma leveza, um desapego, como se não pudesse ser capturado, minimizado. Naquele momento, mais do que nunca, eu estava perdidamente apaixonado. Essa era ruiva. Caminhei decidido no meio da multidão.

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